Posso me converter ao judaísmo se fui criado como cristão?
Atualizado: há 2 dias
Muitíssimos candidatos à conversão ortodoxa cresceram em famílias cristãs. É um caminho normal e comum, e os tribunais conhecem bem esse tipo de história.
Mas quem vem de um passado cristão tem perguntas próprias: o tribunal vai me aceitar, o que fazer com o batismo, como explicar aos meus pais, posso ir ao Natal em família, o que faço com a Bíblia que conheço quase de cor.
Abaixo está tudo isso em ordem: o que é preciso deixar, o que se pode manter, como o Beit Din pergunta sobre o tema e como é a transição na prática.
O passado cristão não é impedimento
A origem e a filiação religiosa anterior não entram na lista de exigências da conversão. Os tribunais ortodoxos recebem pessoas criadas em famílias católicas, ortodoxas e protestantes, inclusive quem foi praticante ativo.
O que de fato se verifica é a situação atual. O tribunal precisa ver que a pessoa chegou ao judaísmo, e não que acrescentou o judaísmo à fé anterior.
É aí que passa a linha, e ela não passa pela biografia: passa pelo presente.
O que exatamente é preciso deixar
Fé e prática
O judaísmo parte da unidade estrita do Criador. Por isso a fé na divindade de Jesus, na trindade e na mediação é incompatível com a aceitação do judaísmo. Não é uma questão de atitude para com cristãos, e sim do conteúdo daquilo que a pessoa assume.
Na prática isso significa sair por completo da vida eclesial: comunhão, confissão, participação nos cultos, filiação a paróquia ou congregação.
Símbolos e objetos
Cruz ao pescoço, imagens, crucifixos e objetos semelhantes saem de casa. Com peças de valor familiar costuma-se agir com delicadeza: elas podem ser entregues a parentes.
Festas
As festas religiosas cristãs deixam de ser suas. Isso não significa romper com a família, e sobre isso falamos logo abaixo.
Como o Beit Din pergunta sobre isso
Os juízes costumam perguntar de forma direta e serena. Como era a sua vida religiosa. Quando você deixou de participar da vida da igreja. O que você pensa hoje sobre Jesus. Como a sua família reagiu. Como você passa as festas cristãs.
A boa estratégia é a franqueza. Tentar apresentar o próprio passado como irrelevante costuma gerar mais perguntas do que um relato calmo sobre como as convicções mudaram.
Uma resposta ruim soa assim: continuo vendo Jesus como mestre, mas agora sou judeu. Uma resposta dessas indica que a transição não se completou.
O que acontece com a família e os amigos
A conversa com os pais
Muitas vezes essa é a parte mais difícil, mais difícil do que o cashrut e o Shabat. Os pais podem receber a decisão como uma rejeição pessoal.
O que ajuda: falar com antecedência em vez de apresentar fato consumado, explicar pela própria vida e não pela comparação entre religiões, não discutir teologia e dar tempo.
Muitas famílias percorrem o caminho do choque à aceitação em um ou dois anos. O rompimento brusco raramente é necessário.
Funerais, casamentos e batizados
A presença em eventos de família dentro da igreja é uma questão que se resolve individualmente com o rabino. Muitas vezes se encontra um formato: ficar do lado de fora, participar da parte social, manifestar apoio em separado.
O rabino indica onde está o limite, e isso é melhor esclarecer antes do evento, e não no dia dele.
Natal e Páscoa na casa dos pais
Em geral se distingue o almoço em família do rito religioso. Muitos continuam visitando os pais sem tomar parte na parte religiosa e sem assumir a festa como sua.
À parte fica a questão do cashrut: comer na casa dos pais exige preparo, e vale combinar isso com antecedência.
Se você foi batizado
O batismo, na infância ou na vida adulta, não cria impedimento à conversão. Do ponto de vista da lei judaica o que importa não é um evento passado, e sim a aceitação atual dos preceitos.
Em geral não se exige uma saída formal da igreja, ainda que em alguns países pessoas façam isso por razões pessoais. O tribunal normalmente não pede esse documento.
Se você foi ministro, padre ou religioso
Esses casos existem. Eles não fecham o caminho, mas em geral significam uma verificação mais atenta e um acompanhamento mais longo.
O tribunal vai querer ter certeza de que a transição é consciente e completa, e não a continuação do trabalho religioso anterior em outra forma. Aqui é especialmente importante que o rabino conheça bem a sua história desde o começo.
O que se aproveita do passado e o que não
Conhecimento do texto
Conhecer o Tanach é uma vantagem. Muitos candidatos de origem cristã se orientam no texto melhor do que pessoas criadas em famílias judias seculares.
Será preciso, porém, reaprender a leitura judaica: Torá oral, comentaristas, abordagem haláchica. Muitos versículos conhecidos soam diferentes nesse enquadramento.
O hábito da oração e da comunidade
Isso também se aproveita. Quem já teve experiência de vida religiosa regular costuma entrar com mais facilidade no ritmo do ano judaico.
Hábitos teológicos
Já de alguns hábitos de pensamento será preciso abrir mão: a ideia de mediação, a noção de salvação pela fé, o costume de ler o Tanach como predição. Essa é a parte mais sutil da transição, e leva mais tempo do que trocar a cozinha.
A ordem prática da transição
Primeiro, cessar a participação na vida da igreja. Sem isso não faz sentido avançar.
Depois, entrar na prática judaica: Shabat, cashrut, sinagoga, estudo com o rabino.
Depois, a conversa com a família, quando você já tem o que mostrar, e não apenas uma intenção.
Por fim, os documentos e a sessão do tribunal.
Essa ordem funciona melhor do que a inversa, porque para a família é mais fácil aceitar aquilo que já está firme do que algo que ainda se discute em tese.
O lado emocional
Pessoas com passado religioso costumam viver a transição de forma mais profunda do que quem vem de um meio secular. Isso tem a ver com a perda de uma linguagem e de uma comunidade habituais.
É normal sentir saudade do antigo modo de vida e, ao mesmo tempo, segurança quanto à escolha. Vale falar disso com o rabino: essa conversa faz parte do trabalho dele, e você não é o primeiro a começá-la.
A estabilidade quase sempre chega pela comunidade. Quem encontrou o seu minián e a sua mesa de Shabat atravessa esse período com mais suavidade.
Erros frequentes
Esconder o passado do rabino ou do tribunal. Isso quase sempre aparece e mina a confiança.
Tentar conciliar: frequentar a sinagoga e manter prática de igreja ou a crença na mediação.
Romper bruscamente com a família. Na maioria dos casos isso não é necessário e mais tarde vira fonte de dor.
Discutir teologia com parentes. Isso raramente convence alguém e em geral piora a relação.
Quanto tempo leva
Muita gente ouviu o número de 12 a 18 meses. Com acompanhamento bem organizado, para um candidato adequado é realista um prazo de 3 a 4 meses. O quadro completo de prazos está reunido em quanto tempo leva a conversão.
Para pessoas com passado religioso o ritmo costuma ser definido não pelo estudo, e sim pela transição interior e pela conversa com a família. Vale levar isso em conta no planejamento.
Conclusão
Uma educação cristã não impede a conversão ortodoxa. O que impede é a incompletude: quando a fé anterior permanece em paralelo com a nova prática.
O primeiro passo prático é uma conversa honesta com o rabino sobre o seu passado logo no início. Isso economiza meses e tira boa parte da ansiedade.
Perguntas frequentes
O tribunal aceita quem foi batizado na infância?
Sim. Um batismo no passado não é impedimento. O que conta é a aceitação atual dos preceitos.
É preciso sair oficialmente da igreja?
Em geral não. Exige-se o fim da participação na vida religiosa, não um documento.
Posso ir ao Natal na casa dos meus pais?
Em regra dá para estar com a família sem participar da parte religiosa. Os limites concretos se conversam com o rabino.
O que fazer com cruz e imagens?
Saem de casa. Peças de valor familiar em geral se entregam a parentes.
Conhecer a Bíblia ajuda?
Sim, mas será preciso aprender a leitura judaica e a Torá oral. É outro sistema de referência.
Como contar a pais religiosos?
Com antecedência, com calma, pela própria vida e não pela comparação entre religiões, e dando tempo a eles.
O passado influencia os prazos?
Nas exigências formais não. No ritmo real às vezes sim, porque a transição interior pede tempo.
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Leia também: requisitos da conversão, por onde começar, o que estudar, a sessão do Beit Din.


