O que acontece no mikveh durante a conversão?
Atualizado: há 2 dias
A imersão no mikveh, a tevilá, é o último passo da conversão ortodoxa e o momento exato em que o estatuto pessoal muda. Antes de entrar na água a pessoa é candidata. Ao sair, é judia segundo a halachá.
É por isso que esse dia concentra o maior número de perguntas e de ansiedade. As pessoas querem saber como é o mikveh, quem está presente, como fica a questão do recato, o que se diz em voz alta e o que fazer se der um branco.
Abaixo, o dia inteiro passo a passo: preparo na véspera, sessão do tribunal, verificação antes da imersão, a imersão em si, as bênçãos e o que acontece logo depois.
O que é o mikveh
O mikveh é um tanque construído segundo regras específicas e cheio de água que atende às exigências da lei judaica. Ele não serve para lavar: a pessoa entra nele já limpa. Serve para mudar de estatuto.
Por que uma banheira ou uma piscina não servem
A água do mikveh precisa ter origem natural e chegar ao reservatório de determinada maneira, sem ser transportada em recipientes. O volume e a construção são regulamentados. Por isso nem banheira nem piscina substituem um mikveh casher, ainda que um corpo de água natural possa, em certas condições, ser usado.
Como é o mikveh por dentro
Um mikveh moderno costuma parecer uma pequena piscina com alguns degraus, revestida de azulejo, com salas de preparo separadas onde há chuveiro, espelho e tudo o que é necessário. Os ambientes são desenhados para garantir privacidade completa.
A profundidade em geral permite ficar de pé, e a água é aquecida. A imersão dura alguns segundos.
Quando a tevilá é marcada
A imersão só é marcada depois de o Beit Din ter dado decisão favorável. Muitas vezes a sessão e a imersão acontecem no mesmo dia, às vezes com alguns dias de intervalo.
Para os homens, entre o brit milá ou a hatafat dam brit e a imersão precisa passar o tempo necessário para a cicatrização. Esse intervalo é definido pelo mohel junto com o rabino.
A data se marca com antecedência, porque o mikveh funciona por agenda e os três juízes precisam estar reunidos.
O preparo na véspera
O preparo não é formalidade. Entre o corpo e a água não pode haver nenhuma barreira, o que em hebraico se chama chatsitsá.
O que precisa ser retirado
Retiram-se todas as joias, inclusive anéis, brincos e piercings, além de relógio, lentes de contato e próteses removíveis. Remove-se esmalte das unhas das mãos e dos pés, gel, alongamento, cílios postiços, curativos e ataduras, quando isso é possível do ponto de vista médico.
As unhas se cortam curtas e se limpam. O cabelo se lava e se penteia com cuidado, para não restar nós. O corpo se lava, retirando resíduos de maquiagem, cremes e desodorante.
Se a pessoa tem uma estrutura médica permanente que não pode ser retirada, como aparelho ortodôntico, implante ou marca-passo, isso se conversa com o rabino antes. Quase sempre existe solução.
O que evitar nesse dia
Não convém marcar para o dia da imersão manicure com esmaltação, bronzeamento artificial, tatuagem nova ou procedimentos estéticos intensos. Também não convém marcar a tevilá para um dia em que você estará com pressa: correria combina mal com o que acontece ali.
O que levar
Documentos, toalha e roupa para trocar, produtos de banho caso o mikveh não forneça, pente e cortador de unhas. Vale confirmar antes o que o local já oferece: em muitos lugares há tudo.
Como é o dia, passo a passo
A sessão do Beit Din
Primeiro acontece a conversa com os três juízes. Perguntam sobre a motivação, sobre o caminho até o judaísmo, sobre leis práticas e sobre a vida cotidiana: Shabat, cozinha, sinagoga, convivência.
No fim da conversa vem a kabalat mitsvot, a aceitação formal dos preceitos. Esse é o núcleo jurídico de todo o processo.
A verificação antes da imersão
Antes de entrar na água, uma pessoa acompanhante confere se o preparo foi feito: sem esmalte, sem joias, sem curativos, cabelo penteado. Para as mulheres quem faz isso é uma mulher, em geral chamada balanit.
A imersão
A pessoa desce os degraus e submerge por completo, com a cabeça, de modo que nenhuma parte do corpo e nenhum fio de cabelo fique fora da água. No momento da imersão não se fica na ponta dos pés nem se aperta os braços contra o corpo: o corpo precisa ficar solto na água.
Em geral se imerge três vezes. O número exato depende do costume do Beit Din.
As bênçãos
Depois da primeira imersão se diz a bênção da imersão e, em seguida, a bênção shehecheianu. O texto costuma ser entregue em mãos ou ditado em voz alta, de modo que não é preciso decorar.
Diferenças entre homens e mulheres
Para as mulheres
O recato é observado de forma estrita. Os juízes não ficam dentro do recinto: permanecem do lado de fora e recebem a confirmação da mulher que acompanha, de que a imersão foi feita corretamente. Em alguns lugares ouvem a bênção pela porta entreaberta.
Para os homens
Os homens passam pelo brit milá. Se a circuncisão já foi feita antes, realiza-se a hatafat dam brit, a extração simbólica de uma gota de sangue, conduzida pelo mohel. O procedimento é curto e pode ser feito com anestesia local, conforme combinado.
Na imersão os juízes podem estar presentes, a distância e com o devido decoro.
O que acontece logo depois
O certificado de conversão
O documento costuma ser entregue no mesmo dia ou nos dias seguintes. Vale conferir na hora: nome, data, composição do tribunal, carimbos. Esse documento será necessário para registro de casamento, imigração e qualquer questão de estatuto pessoal, então guarde-o como um passaporte e faça cópias.
Os primeiros passos práticos
A partir desse momento a pessoa passa a estar obrigada em tudo aquilo em que um judeu está obrigado. Na prática, muita coisa que antes era desejável passa a ser dever.
Se a pessoa vive com um parceiro judeu, o casamento se realiza de novo segundo a lei judaica depois da conversão. Esse ponto se conversa com o rabino antes, e não depois.
O que as pessoas sentem nesse dia
As reações variam muito. Há quem chore, há quem sinta alívio, e há quem sinta uma estranha normalidade e só perceba a dimensão do que houve alguns dias depois.
O importante é não comparar a própria sensação com o relato dos outros. Juridicamente o estatuto muda independentemente da emoção sentida dentro da água.
Muita gente conta que o mais forte não foi a imersão em si, e sim o primeiro Shabat depois dela.
Receios comuns
Medo de água. Isso precisa ser dito antes. A profundidade é pequena, há alguém ao lado e a imersão dura segundos.
Vergonha. A arquitetura do mikveh foi pensada exatamente em torno do recato. Dentro da água a pessoa está sozinha.
Medo de errar. Todos os passos são indicados na hora. Se a imersão sair incompleta, simplesmente se repete.
Erros frequentes
Chegar sem preparo: com esmalte, unhas alongadas ou lentes de contato. Isso gera atraso ou remarcação.
Não perguntar antes sobre particularidades médicas. Quase toda situação tem solução quando é discutida antes do dia.
Marcar a tevilá num dia muito cheio. Vale deixar tempo livre em volta dela.
Quanto custa e quanto tempo leva
O uso do mikveh em si costuma custar um valor simbólico e às vezes é coberto pela comunidade. À parte ficam as despesas administrativas do tribunal e os honorários do mohel, quando necessários. O orçamento completo está detalhado em quanto custa a conversão.
Em tempo, o dia todo costuma levar de duas a quatro horas, contando a sessão. A imersão em si dura menos de um minuto.
Conclusão
O mikveh é o encerramento do processo, não uma prova. Ao chegar nesse dia a pessoa já vive uma vida judaica, e a água apenas formaliza o que aconteceu antes.
O mais útil a fazer com antecedência é passar pelo preparo com calma e levar ao rabino todas as perguntas constrangedoras, sem deixá-las para a manhã do dia.
Perguntas frequentes
Os juízes veem a mulher no momento da imersão?
Não. Os juízes ficam fora do recinto e a confirmação é dada pela mulher que acompanha.
Quantas vezes é preciso imergir?
Em geral três. O número exato segue o costume do Beit Din.
Dá para imergir no mar ou num lago?
Às vezes um corpo de água natural serve, mas quem decide é o rabino. Na grande maioria dos casos se usa um mikveh construído.
E aparelho ortodôntico ou implante?
Isso se resolve antes. Estruturas médicas permanentes em geral não são consideradas barreira, mas a confirmação precisa vir antes do dia.
É preciso decorar as bênçãos?
Não. O texto é entregue ou dito em voz alta para você repetir.
O certificado sai na hora?
Em geral no mesmo dia ou nos dias seguintes, conforme o funcionamento do tribunal.
E se a imersão for considerada incompleta?
Ela simplesmente se repete ali mesmo. É uma situação de rotina, não um fracasso.


